Quando o Interior é uma janela de inovação aberta ao Mundo
Texto Pedro Emanuel Santos  •  Fotografia Igor Martins e Leonel de Castro  •  Vídeo Eduardo Fortunato
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Quando o Interior é uma janela de inovação aberta ao Mundo
A discrição da STI não deixa adivinhar que ali se pratica a palavra futuro. Na sala desta empresa inovadora de Vila Real trabalham quase 50 cérebros que são referência internacional desde o Marão. São a raiz da empresa e da região. Estudaram, praticamente todos, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). São transmontanos com orgulho, quiseram manter-se fiéis ao seu chão e provar que é possível fazer tanto ou melhor estando afastados de centros maiores, como Lisboa e Porto, ou mais distantes ainda, noutros países onde os estímulos financeiros são outro dos fatores de captação de talentos invulgares. São jovens, a maioria, não quiseram sair porque acharam que ficar seria a solução para se sentirem realizados. Só essa solução, nada de tentações por futuros desconhecidos de risco e derrota.

“Fazemos exatamente o mesmo que se pode fazer no litoral. Com vantagens. As deslocações para o trabalho são curtas. O stresse passa-nos ao lado, temos liberdade, não estamos dependentes de trânsito, de transportes públicos, de horários. Na balança entre a calma e o stresse das grandes cidades, a resposta é fácil de encontrar”, descreve Hugo Pinto, gestor de produto da área logística da STI, 40 anos, morador e natural de Vila Pouca de Aguiar, a 30 quilómetros de Vila Real.
Para Hugo Pinto, trocar a liberdade e a calma de Vila Real por outros centros é impensável
A STI não é de agora, vem do fim da década de 1980, exatamente de 1989, quando Vila Real e toda a região transmontana eram mais impenetráveis ainda. Os acessos não eram os mesmos, as distâncias pareciam (e eram) maiores do que hoje são. Era um outro Portugal, uma outra Vila Real, um outro Trás-os-Montes. Mas Paulo Costa, o fundador e sócio-gerente da STI, não se importou com nada disso. Veio de Braga, onde estudou na Universidade do Minho Engenharia de Sistemas Informáticos, foi para Vila Real e nunca mais a deixou, adotando-a como sua.

“Na região, pode faltar-nos muita coisa. E falta. Mas temos qualidade de vida. Qualquer pessoa sai de casa e cinco minutos depois está no local de trabalho. Não há perdas de tempo desnecessárias, a proximidade é sempre vantagem”, aponta sem hesitação. “Temos transmontanos que trabalham connosco há cerca de duas décadas que são o grande suporte da STI. O objetivo foi sempre esse, ir contratando dentro desta área geográfica”, completa.

Na STI desenvolvem-se, entre outras soluções tecnológicas, módulos responsáveis pelos circuitos dos medicamentos em ambiente hospitalar. É uma das duas únicas empresas portuguesas a servir estas ferramentas em hospitais espalhados por todo o território nacional – a outra concorrente é uma gigante da área. “No fundo, gerimos toda a relação do hospital com os fornecedores. Tudo é comprado com a nossa solução e depois distribuído para as respetivas funções nas unidades”, explica Paulo Costa. “Os módulos fazem o circuito do medicamento, que é a segunda rubrica de custos, depois dos recursos humanos, de um hospital”, acrescenta.
Paulo Costa fundou a STI em 1989
O trabalho da STI não se fica pelo mapa original. Das instalações em Vila Real saem trabalhos para outros destinos, como o Chile, na América do Sul, ou o Bahrein, no Médio Oriente. “Também estamos em Barcelona, num dos maiores centros de quimioterapia da Europa”, diz o responsável. Sempre a partir de Vila Real e com pessoas da área de Vila Real. “Contribuímos, garantidamente, para que ficassem a trabalhar na cidade. Aconteceu porque encontraram na STI um projeto interessante, aliciante, exigente e criativo”, sublinha. “No entanto, é difícil segurar jovens”, admite Paulo Costa. O segredo passa por encontrarem na empresa “pessoas com conhecimento”. E essa partilha “é aliciante”.

Os dias seguintes da STI são sempre agora. Não se interrompe a ambição de querer mais sem esquecer o essencial, que a pessoa está em primeiro lugar, que Vila Real nunca ficará para trás, que os funcionários terão ali sempre mais do que apenas trabalho, casa, carinho, amparo e projeto. E tempo, o tal tempo que todos elogiam ser possível aproveitar como dificilmente se aproveitaria noutras cidades mais cosmopolitas, sejam de Portugal ou fora do país. “É como se fosse um constante resistir à tentação de sair para experimentar outras realidades porque aqui se tem tudo o que é necessário de bom para viver”, como dizem ao JN na STI.
Litoral dominador
Segundo a plataforma Teamlyzer, especialista em análise do setor nas suas múltiplas vertentes, mais de dois terços das 55 tecnológicas que iniciaram atividade em Portugal em 2025, 45 abriram portas em Lisboa, no Porto e no que foi designado de Centro Norte, que engloba os distritos de Aveiro, Coimbra, Leiria, Viana do Castelo. No Alentejo e nas regiões autónomas da Madeira e dos Açores, nasceram apenas quatro. As restantes optaram pelo trabalho remoto ou por não possuir uma sede fixa.

No entanto, notou a mesma Teamlyzer, o ano passado foi de mudança ténue com o surgimento de novas apostas geográficas, desviando o monopólio constante de Lisboa e do Porto. “Portugal amadureceu como destino tecnológico. A descentralização é a grande vencedora deste ano”, refere a plataforma no seu resumo às movimentações verificadas em 2025.

O desafio de atrair tecnologia ao Interior é, então, maior, em grande parte devido às desigualdades territoriais. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) dizem que em dez anos, entre os anos de 2011 e 2021, Portugal perdeu 2,1% de toda a população nacional. O processo de quebra foi revertido no início da presente década, quando o país ganhou cerca 400 mil habitantes, a grande maioria imigrantes.

A sangria foi mais violenta no Interior, território de desequilíbrios quando a comparação quase inevitável se faz com o litoral, para onde a fuga em busca de outras oportunidades que a desertificação gradual não consegue oferecer é recorrente. Mas o Interior não é condenação certa à indiferença. Há quem faça o exercício ao contrário. Há quem lá estude e pense noutros voos, noutros destinos. Há quem troque o imaginário das grandes cidades pelo orgulho das raízes que recusa abandonar. Há quem prefira o amor ao seu chão à incerteza do desconhecido, por mais que as promessas de sucesso possam fazer sonhar.

O chamado padrão de litoralização “foi reforçado” no período analisado na radiografia oficial de Portugal, plasmada nos dados do INE obtidos no Censos 2021. Cresceu o desnível na distribuição de população pelo território através de um “um notório contraste entre os municípios localizados na faixa litoral do continente e os localizados no Interior”. Ou seja, 1,1% da área do país concentra 20% de toda a população. E isto apenas quando se fala da Área Metropolitana de Lisboa. Diz ainda o INE, nas mesmas conclusões, que 208 municípios ocupam 65,8% da área do país.
Balança desequilibrada
Se choque de realidade fosse necessário apresentar, os números estão aí para provar o irreversível. Portugal é como uma balança de pesos em que um dos pratos está manifestamente acima do outro. No topo, as cidades e regiões que aglomeram o grosso dos habitantes, no extremo oposto uma extensa mancha de vazio. De vazio de pessoas, de vazio de oportunidades, de vazio de desafios, de vazio de esperança. De oportunidades que fogem e que levam com elas na fuga jovens que buscam mostrar o que valem e aplicar os conhecimentos adquiridos fora das origens, fora do seu chão original.

Outro estudo, este levado a cabo pela Tech Talent Explorer, plataforma online pensada em Portugal para monitorizar a realidade das empresas tecnológicas em todo o mundo, apontou que 60% dos profissionais da área planeiam mudar de empregador até ao final deste ano, uma percentagem muito próxima da média europeia (66%). Mas também sugere que Portugal é um destino competitivo para hubs da área devido aos custos baixos que pratica. Fica, portanto, a dictomia entre o risco de perder talentos para outras paragens, nomeadamente para destinos profissionais que conferem melhores salários e condições, e as condições apetecíveis para criar o futuro através de empresas onde pontificam jovens que criaram conhecimento nas universidades nacionais.

A Fundação José Neves também se debruçou sobre o tema e chegou à conclusão, numa análise aprofundada, que as “mudanças rápidas no mercado de trabalho estão a aumentar o diferencial entre as competências que as empresas valorizam e as que são aprendidas nas instituições de ensino”. Por isso, apontaram os autores da análise, “abraçar a tecnologia e apostar na formação contínua são algumas das formas que as empresas podem empregar nas estratégias de retenção de talentos”. No fundo, é necessário olhar em frente e tentar antecipar o futuro através de ferramentas originais que se tornarão referência antes mesmo de alguém sequer imaginar que pudessem ser realidade. Captando, nesse sentido, o farol de imaginação e saber que sai dos cérebros dos jovens, em particular daqueles que percorrem o caminho do Ensino Superior em universidades e politécnicos do Interior e que, por tudo o que a realidade lhes diz, ambicionam depois trabalhar em centro urbanos de maior abrangência populacional.
Reter talentos
Foi nisso mesmo, na retenção de jovens valores, que pensaram Vasco Lopes e Bruno Degardin. Ambos são da Covilhã (Bruno nasceu em França, mas ainda criança foi com a família para a cidade serrana), ambos estudaram na Covilhã, ambos se licenciaram e concluíram mestrado e doutoramento na Universidade da Beira Interior (UBI), igualmente na Covilhã. E foi também na Covilhã que ambos começaram a borbulhar a ideia de que uma empresa ligada à inteligência artificial (IA) dali fizesse escola e escala para todo o Mundo.
Bruno Degardin foi, a par de Vasco Lopes, um dos fundadores da DeepNeuronic
Assim nasceu a startup DeepNeuronic, das raízes de um Prémio Nacional de Inovação – outros prémios vieram depois, como o recebido nos World Summit Awards - e com o sonho de fazer da cidade um pequeno polo de inovação tecnológica que rapidamente pudesse crescer. E com um desígnio, o de dar aos jovens talentos locais oportunidades para mostrarem isso mesmo, o seu talento, as suas ideias, as suas capacidades, sem saírem de um Interior encravado num mapa habituado ao desalento do abandono, à fuga de recém-licenciados para outras paragens, à desistência, ao encolher de ombros perante uma realidade que parecia muro duro e inamovível de tão delicada de contradizer.

“Reter talentos acaba por tornar-se algo fácil. A qualidade de vida na Covilhã é excelente e os custos gerais são mais baixos do que nos maiores centros urbanos. O que é o ideal para jovens em início de carreira. Até quem vem de fora para estudar na UBI prefere, no fim do curso, ficar por aqui. E, mesmo que não decidam assim, a distância pode sempre ser mitigada através de trabalho remoto”, resume Bruno Degardin. “Afinal, se fazemos instalações para clientes que estão na Nova Zelândia, na América do Sul, em África... Qual o problema de estarmos na Covilhã?”, interroga. E quais as dificuldades, se as há? “Apenas vejo uma de maior, o facto de não termos um aeroporto por perto”, responde pronto.

João Brito e Pedro Brito, funcionários da startup – a coincidência de apelido é apenas isso mesmo, coincidência –, assinam por baixo. “Aqui estamos perto de tudo, não temos qualquer stresse a nível, por exemplo, de trânsito, os preços são mais baixos do que em Lisboa ou no Porto. No fundo, temos tudo o que teríamos lá e vivemos de forma tranquila”, apontam.

“Além disso, estamos perto de Espanha e a duas horas de estrada tanto de Lisboa como do Porto”, completa, por sua vez, Bruno Degardin. “Sempre foi nosso objetivo claro fixar pessoas que fizeram o seu curso na UBI. Queremos que fiquem na cidade e que percebam que aqui têm exatamente as mesmas condições para desenvolver o seu trabalho tal qual estivessem noutros centros urbanos mais movimentados, com Lisboa ou no Porto. Ou, até, fora de Portugal”, explica Bruno Degardin.
Da Covilhã sem limites
Tão convicta é a missão que a DeepNeuronic, sempre a partir da Covilhã, já cresceu ao ponto de criar novas delegações em Lisboa e, até, no Brasil. Dezasseis pessoas, no total. Desenvolve programas de IA que ajudam a detetar em tempo real qualquer tipo de obstáculo que limite a circulação numa autoestrada – e trabalham com empresas como a Ascendi -, que contribuem para reduzir tempos de espera dos aviões – e estão ativos em aeroportos do Brasil como os de Congonhas (São Paulo) e do Recife – que propõem soluções para melhor relacionar o cliente em lojas de retalho – nomeadamente em grandes superfícies comerciais.

A startup está instalada na UNIMED, polo tecnológico da Covilhã onde brotam startups que não se cingem às fronteiras locais e abraçam todos os continentes com o seu conhecimento. Porta após porta do edifício dinamizado pela Universidade da Beira Interior há um microcosmos de cérebros que pensam a tecnologia como ferramenta de inovação com ideias nascidas, pensadas, geradas e desenvolvidas a partir do coração da serra mais alta de Portugal Continental, onde durante décadas prevaleceu a ideia de que só seria possível fazer novo saindo daquele território. “Temos vantagens, como estarmos a duas horas quer de Lisboa como do Porto. Temos desvantagens, como não termos um aeroporto próximo. Mas sabemos que a nossa localização geográfica não nos é impeditiva de nada. Podemos fazer tudo e mostrarmos o nosso valor tendo a Covilhã como base”, garante Bruno Degardin.

O futuro da DeepNeuronic, avança o responsável, passa por mais. Mais sonho, mais projetos, mais ambição. “Não queremos ficar por aqui, queremos levar a inteligência artificial portuguesa para outras geografias e tornar Portugal uma referência de qualidade”, garante.
Tempo, criatividade e ambição
O trabalho desenvolvido tem chamado a atenção de empresas internacionais, inclusive de tecnológicas norte-americanas. Já choveram propostas, mas na DeepNeuronic as condições são claras e uma venda não se fará apenas tendo por princípio uma proposta milionária. “Não dizemos que não a uma aquisição, depende da missão que a empresa interessada defenda em termos de criatividade, de ambição e de agilidade. Já recusámos propostas internacionais, não quer dizer que continuemos a dizer que não a outras que nos apresentem. Somente, porém, se houver alinhamento de missão, caso contrário a venda não será equacionada”, define.
DeepNeuronic aposta na captação de talentos saídos da Universidade da Beira Interior, na Covilhã
A prioridade a curto prazo, diz Bruno Degardin, é “investir no crescimento da equipa”. Os próximos meses podem fazer-se de outras paragens, de novas missões, de outras placas noutros destinos para trabalhar. Mas sempre com um desígnio inegociável. “Vamos sempre ter a Covilhã, como sede. Isso é uma certeza”, garantem os fundadores.

Tal como na STI, também na DeepNeuronic o tempo e o que se faz dele é argumento para ficar e excluir aventuras noutros territórios. Tempo que é qualidade de vida, que é matriz de um conceito que vai muito além do próprio negócio. Que tem na proximidade pano de fundo de uma vida que ser quer propositadamente lenta e sem pedir licença para existir com qualidade.

Porque é o tempo que manda. É liberdade, dita destinos e molda vidas pelo lado positivo. Sempre.
Desenvolvimento Tiago Coelho
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