Há famílias que escolhem a cidade pelas oportunidades profissionais, pelo ritmo, pela agitação incessante, pelos cafés, pelos teatros. Este é o movimento tradicional que Portugal tem vivido desde a década de 1950 e que, até à década de 1970, provocou um êxodo rural fortemente pronunciado. Mas esse movimento não se estancou aí. Nos últimos 20 anos, encerraram 3500 escolas em Portugal, por falta de crianças. Dois dos distritos mais afetados foram Braga e Viseu. Agora, há quem comece a fazer o caminho inverso: famílias que escolhem o campo pelo espaço, pelo ar puro, pela possibilidade de ouvir o silêncio, para viver sem trânsito e também pela educação das crianças. Carla Rego e Miguel Carvalho, com os filhos Gustavo e Pilar, pertencem a este último grupo. A decisão de abandonar a vida citadina não surgiu de um impulso, mas de uma sucessão de escolhas, mudanças e descobertas que moldaram o quotidiano da família, hoje residente em Santa Leocádia, uma aldeia tranquila do distrito de Braga.
Carla, Miguel, Pilar e Gustavo e a sua nova paisagem
Carla nasceu no Douro, mas cedo migrou para o Porto para estudar. “Foi lá que me apaixonei pela cidade, pelo ambiente universitário, pelos cafés e pela biblioteca da Faculdade”, recorda. Miguel, embora natural do Porto, sempre manteve uma ligação profunda ao campo. Quando o destino profissional o levou ao Alentejo em 2009, a vida começou a equilibrar-se entre o urbano e o rural. “Eu sou do Porto de gema, mas o Porto tinha ficado para trás em termos de etapa de vida”, diz Miguel, refletindo sobre a mudança que, em 2012, consolidaria a vida da família longe das grandes cidades.
O Alentejo marcou o início de uma nova fase. Carla, que nunca tinha vivido fora da cidade em adulta, descobriu a liberdade do espaço aberto e a tranquilidade de uma vila pequena, o Torrão, em Alcácer do Sal. “Apaixonei-me. Percebi claramente que me encontrava mais fora da cidade, ao contrário do que idealizava inicialmente”, confessa. Foi lá que Pilar e Gustavo, hoje com 12 e 11 anos, nasceram, e os pais tiveram o privilégio de acompanhar cada passo dos primeiros anos das crianças. O ritmo calmo, o contacto direto com a natureza e a proximidade da comunidade marcaram a infância dos pequenos. “Tivemos esse privilégio de poder ver crescer os nossos filhos num ambiente completamente diferente da cidade, pequenino, com tudo o que isso tem de bom”, lembra Carla.
A experiência internacional
Em 2016, surgiu um novo desafio: uma oportunidade de trabalho no Dubai. Gustavo tinha três anos, Pilar um e meio, e a família partiu para o desconhecido. “Foi um grande desafio, começar uma vida nova, literalmente do zero, deixando tudo para trás. Mas foi enriquecedor, fortaleceu-nos enquanto família”, recorda Carla. Dois anos e meio depois, regressaram a Portugal, passando uma temporada no Porto antes de se fixarem em Esposende, onde novamente encontraram espaço para respirar e liberdade para as crianças.
Mas a busca pelo equilíbrio entre trabalho, vida familiar e natureza encontrou finalmente o seu ponto alto em Santa Leocádia. A escolha do local não foi motivada por familiares próximos, mas pelo desejo de estar no campo. “Queríamos estar no campo, ter qualidade de vida. E, quando vimos esta casa, parecia que estava à nossa espera”, disse Carla. Miguel complementa: “Quando queremos invadir o barulho e a cidade, invadimos a cidade, mas ela não nos invade a nós. Essa é a nossa filosofia.”
Trabalho remoto
O dia a dia da família combina trabalho remoto, estudo e atividades extracurriculares. Carla é nómada digital, Miguel trabalha com a indústria corticeira portuguesa e desloca-se ocasionalmente a fábricas próximas do Porto e de Aveiro. Gustavo e Pilar dividem-se entre escola pública, equitação, natação e momentos de lazer no terreno que rodeia a casa. “Eu gosto tanto do meu cavalo. Andar com velocidade faz-me sentir leve”, conta Pilar. Gustavo, mais explorador, passa horas a descobrir a natureza envolvente, observando aves, explorando bosques e aprendendo sobre os animais selvagens que habitam a aldeia. “Quero ser veterinário ou trabalhar com animais selvagens”, confidencia o menino.
O cão Bowie, escolhido no Algarve, tornou-se parte da rotina: corre livremente pelo terreno, acompanha as crianças e conhece os horários da família. “Quando saímos de casa, ele sobe a rampa a correr, às vezes mais rápido que o carro”, comenta Gustavo, rindo.
Na casa nova, as crianças praticam equitação
A integração na escola pública local surpreendeu os pais. Até viverem no Interior frequentavam escolas privadas. Carla relata: “Mesmo sendo escola pública, há um cuidado enorme com as crianças. Quando se esquece de informar alguma ausência, telefonam imediatamente. É uma atenção que nos tranquiliza.” Para os filhos, a mudança trouxe amizades novas, autonomia e mais tempo ao ar livre. Gustavo observa: “Aqui tenho mais espaço para brincar e para estar ao ar livre. No Porto, era sempre ficar dentro de quatro paredes, como se estivesse dentro de um caixote e para outro caixote, e outro caixote.” Pilar concorda: “Aqui é mais tranquilo. Posso brincar com os amigos, cuidar do cavalo, ir à piscina. É diferente, sinto-me bem.”
Os finais de tarde e os fins de semana estão reservados à equitação, à natação e a momentos de convívio familiar. A rotina é estruturada, mas flexível: as crianças aprendem a gerir horários, a responsabilidade e o contacto com o mundo digital de forma equilibrada. “Temos o autocarro escolar mesmo à frente de casa. É uma forma de eles ganharem independência, algo que nas cidades acontece menos”, explica Carla.
Além da rotina e das atividades, Santa Leocádia oferece experiências únicas de contacto com a natureza. Cobras, lagartixas, águias e falcões atravessam os dias das crianças, e o terreno é palco de descobertas constantes. Gustavo relata com entusiasmo: “Conhecemos o Salomão, que tem uma quintinha com cavalos. É muito bom ir lá e brincar com eles, além de aprender sobre outros animais.”
Pilar diz que quer ser veterinária de animais de grande porte
A história de Carla, Miguel, Gustavo e Pilar é a história de uma família que aprendeu a equilibrar o urbano e o rural, a tecnologia e o contacto com a natureza, o trabalho e a vida familiar. Santa Leocádia não é apenas um endereço no mapa: é o espaço onde crescem os filhos, se cultivam amizades e se constrói um quotidiano pautado pela liberdade. “Escolhemos o campo, mas mantemos a cidade quando queremos. É isso que nos dá equilíbrio”, resume Miguel. Os quatro elementos da família são unânimes sobre o que lhes traz nostalgia do litoral: "O mar".
Diana, Tiago, David e Lara desfrutam do terreno da sua casa
Aldeia das Posses: Uma saída da Granja em busca de uma vida mais completa
“Bem vindos às Beiras”, diz Diana enquanto abre a porta e o sorriso de par em par. A história de Diana e Tiago, com os filhos Lara e David, de quatro e dois anos, ganhou ainda mais profundidade quando começaram a olhar para trás e a perceber como tudo aconteceu. A mudança para a aldeia das Posses não foi impulsiva, embora pareça. Foi, como descrevem, um caminho silencioso que foi crescendo dentro deles.
“Estamos aqui desde o dia 25 de janeiro, há sensivelmente dois meses”, explica Tiago. E logo acrescenta, com um sorriso: “mas parece que já estamos aqui há dois anos.” A intensidade da experiência fez o tempo ganhar outra dimensão.
A decisão, no entanto, não surgiu de um dia para o outro. “Foi um processo que foi amadurecendo ao longo dos últimos dois anos”, conta Diana. Havia sinais, pequenas vontades, inquietações. Tiago sempre teve “aquela ideia romântica de se reformar antes dos 50”, enquanto Diana já vivia mais próxima do ritmo que procuravam: “Eu já estava muito direcionada para estar na natureza… trabalhava com ervas, com óleos.”
David e Lara adoram plantar flores no jardim
Mundos diferentes
Mesmo vivendo juntos, sentiam que estavam em mundos diferentes. “Parecia que havia duas pessoas a viverem duas vidas diferentes”, admite ela. Diana deixou de trabalhar como terapeuta ayurvédica, para estar com os filhos, num ritmo tranquilo. Tiago geria uma empresa de cosméticos, mergulhado no stresse profissional, horários rígidos e responsabilidades constantes. E essa diferença começou a pesar.
O ponto de viragem aconteceu quando começaram a explorar novas experiências. “Começámos a expor-nos a comunidades… a permacultura, a herbalismo”, explica Tiago. No HerbFest, um festival no Alentejo, algo mudou. “Percebemos que havia pessoas a fazer este caminho de conexão com a Natureza. E que era possível”, diz Diana.
Mais tarde, no Festança, em Baião, essa ideia tornou-se concreta. “Não era aquela ideia do hippie do paz e amor… era uma escolha de vida real”, sublinha Tiago. Viram famílias como a deles a viver de forma mais simples, mais conectada, mais consciente.
A partir daí, começaram a desenhar o plano. “Temos de ter uma casa, um terreno… mas perto da cidade”, recorda Tiago. Definiram um limite: até uma hora e meia do Porto. Queriam mudar sem cortar totalmente com o passado - “matar a saudade da francesinha” e manter as relações importantes.
A procura levou-os até Penalva do Castelo. “Apaixonamo-nos imediatamente pela casa, pelo terreno, pelo sítio”, diz Diana. Curiosamente, os vizinhos começaram todos a aparecer nas primeiras semanas para os conhecerem. Tiago conta que no final da primeira semana tinham 60 ovos no frigorífico de tantas ofertas que recebiam.
A paz no Interior cativou a família
O medo da incerteza
Mas havia medos, sobretudo em relação à escola das crianças. “Nós comprámos a casa sem eu conhecer as escolas”, confessa Diana. Chegou a acordar de noite preocupada.
A experiência anterior não ajudava. No Porto, Diana tinha visitado inúmeras escolas e sentia distância: “Os pais eram tratados como não fazendo parte da comunidade escolar.” Portas fechadas, visitas limitadas, pouca ligação. Para levar Lara à escola, fazia 40 quilómetros, para chegar a uma Escola da Floresta. Aqui, tudo foi diferente. Quando ligou para a escola local, ouviu algo inesperado: “Pode vir já hoje, a professora está cá.” E assim foi. “Fui super bem recebida”, conta. A auxiliar, Nazaré, e a educadora Ana abriram-lhe a porta, literalmente.
A realidade também surpreendeu: “A sala tinha cinco crianças.” Uma escola inteira com pouco mais de vinte alunos. “Percebemos que a minha pergunta sobre vagas era ridícula”, diz, rindo-se. Mas essa pequena dimensão revelou-se uma força, mais atenção, mais tempo, mais ligação.
“Há envolvimento com os pais, há tempo para tudo”, explica Diana. E isso fazia toda a diferença, especialmente para Lara. “Uma das coisas importantes era não a deixar a chorar”, diz. Aqui, a adaptação foi feita com cuidado, respeito e presença. O mesmo cuidado no centro de saúde, onde puderam escolher o médico de família.
Enquanto isso, o quotidiano em casa também refletia a nova vida. Entre conversas, risos e interrupções dos filhos, David à procura de algo para brincar, Lara a pedir atenção, a família foi construindo uma rotina mais leve, mais humana. “Eles precisavam era de alguma coisa para fazer”, brincam, mostrando como a vida acontece sem filtros. Na casa nova já há rotinas, Lara vai todos os dias à porta das fadas, ver o que elas por lá lhe deixaram, e mostra as prendas orgulhosa. David corre desenfreado por entre as margaridas e recusa-se a estar dentro de casa, gosta das ovelhas e dos pintainhos dos vizinhos
No meio desse caos doce, perceberam algo essencial: esta mudança não era só sobre sair da cidade. Era sobre alinhar a vida com aquilo que realmente valorizavam. E, olhando para o caminho, das dúvidas às decisões, das visitas aos festivais até à escolha da casa, tudo começou a fazer sentido. O que antes era apenas uma ideia distante transformou-se numa realidade concreta.
Hoje, mesmo com desafios e ajustes, nomeadamente económicos, ao reduzirem os seus gastos ao mínimo, também muito ajudados pela renda da casa que deixaram na Granja, em Gaia, Diana e Tiago reconhecem que a mudança não foi um salto no escuro.
Hoje, Lara, apesar das “saudades da escola de ballet”, já viveu experiências como a bênção dos ramos e aprende novas tradições. David apanha flores e aprende a lidar com os animais. Foi uma viagem até àquilo que, no fundo, sempre procuraram.