Rui foi parar a Mação quase por acaso e rapidamente abraçou a missão de dinamizar o território. Graças a ele, já houve mais de 20 novas casas a serem ocupadas. Sofia tinha um sonho invulgar: deixar o Porto e voltar a Lamego. Há quatro anos, pôde cumpri-lo. Agora, quer muito mostrar as “coisas boas” da cidade. Marisa já andou por Moçambique e pela Catalunha. Hoje, desdobra-se em iniciativas em torno de Viseu. Para incentivar jovens a ficarem no território. São rostos de associações que têm procurado dinamizar os territórios de baixa densidade, fixando a população e chamando novos residentes.
"Adoro viver aqui, adoro o espaço onde vivo"
Durante quase 50 anos, Rui Santos, consultor têxtil, hoje com 57 anos, foi uma pessoa vincadamente urbana. Primeiro em Braga, onde nasceu e cresceu. Depois em Berlim, onde viveu durante 13 anos. Entretanto, decidiu voltar, sem um destino rigorosamente definido. Lisboa, Braga, Porto, chegou a ver casas um pouco por todo o lado. Até que o companheiro lhe mostrou a foto de uma que estava à venda em Mação. “Mação, onde é Mação?”, questionou.
Trata-se de uma vila do distrito de Santarém, a 170 quilómetros de Lisboa. Rui não tardou a marcar visita. Lembra-se que quando lá chegou, à rua principal, estava praticamente tudo à venda. Lá pelo meio, encontrou uma casa fechada há praticamente dez anos. E assim que chegou à sala de estar, uma sala imponente, com características arquitetónicas sui generis, soube que a vida teria de seguir a partir dali. “Costumo dizer que a casa é que me escolheu, e a casa estava em Mação”, partilha. Até aí, mudar-se para um território de baixa densidade não era algo que se visse fazer. Mas o projeto de renovar aquela casa falou mais alto que tudo.
Oito anos depois (comprou a casa em 2017, mudou-se em 2018), declara-se rendido: “Tem sido uma experiência muito boa. Adoro viver aqui, adoro o espaço onde vivo. A distância a um centro urbano não é assim tão grande, demoro hora e meia a chegar a Lisboa. Em Berlim, demorava hora e meia a chegar ao meu local de trabalho. E não estou tão isolado como pensava, faço tudo a pé: vou às Finanças, vou à Loja do Cidadão, vou à Conservatória, vou ao advogado, vou ao café, vou ao supermercado. Quando comecei a viver a vila, comecei também a quebrar alguns tabus que tinha em relação à vida no Interior.” De tudo o que mudou, enfatiza a qualidade de vida que ganhou. “O tempo rende, acordas sem stress, em cinco minutos estás no teu lugar de trabalho, queres um documento oficial e consegues na hora, sem marcação prévia. E depois ainda há a questão da ligação à natureza. São condições que me agradam e recomendo.”
Rui Santos mudou-se do alvoroço de Berlim para o sossego de Mação e confessa-se rendido
A prova de que gosta e recomenda está um pouco por toda a vila. “Eu sou um aglutinador de pessoas. Mal me mudei para cá, os meus amigos alemães, surpreendidos com isto de ter vindo para Mação, tiveram curiosidade e quiseram vir conhecer. Logo nas primeiras visitas, adquiriram propriedades. Na altura, havia muitas casas à venda.” Desde então, só entre amigos e amigos de amigos, já houve mais de 20 pessoas a comprar casa em Mação. “Um amigo traz um amigo, as pessoas gostam e indicam, começa a criar-se uma comunidade.” Já o cenário de uma rua principal onde se tropeçava numa placa de venda a cada esquina é já uma miragem. “Hoje em dia, já é difícil encontrar um imóvel à venda no centro de Mação.”
A vontade de partilhar a experiência de mudança para um território de baixa densidade era tal que, em 2020, encontrou a Rural Move, num “zapping informático”, e logo se quis tornar voluntário. Na altura, a associação estava a dar os primeiros passos, à boleia da pandemia de covid-19. João Almeida, o coordenador e cofundador da Rural Move, que vive entre Viseu e Oliveira do Bairro, recorda esse início às apalpadelas. “As pessoas estavam a tentar mudar e não sabiam como procurar casa, espaços de coworking, oportunidades de emprego, apoios do Estado, e acima de tudo não tinham um ponto de contacto local no território. A nossa ideia inicial foi criar uma plataforma que agregasse esta informação.” Até porque a oferta neste âmbito era diminuta. “O que existia eram sobretudo associações viradas para a agricultura ou projetos a nível mais micro e local, com uma resposta pouco estruturada.”
Entretanto, graças a uma candidatura bem-sucedida a um concurso de inovação social, a Rural Move constituiu-se mesmo como associação. Era então outubro de 2020. E os pedidos começaram a chegar às centenas, tornando-se impossível responder a todos. A torrente de solicitações e o âmbito muito diverso dos pedidos levá-los-ia a reformular o âmbito da associação. Hoje, a Rural Move define-se como o “ponto de encontro da nova ruralidade”, com o “trabalho duplo” de ser uma rede para quem já vive nestes territórios e um ponto de encontro para quem se quer mudar ou investir.
"Quem quer namorar com uma comunidade rural?"
Em 2022, também Rui Santos, de Mação, passou a integrar a direção, como secretário-geral e coordenador de comunidades rurais. É também gestor de comunidade em Mação. Na prática, procura impulsionar atividades de dinamização do território e de atração de possíveis “movers” (quem se muda para o mundo rural). Desde workshops de “storytelling” para apresentar Mação, a encontros com a comunidade, para perceber o que pode ser melhorado, passando por sessões online destinadas a pessoas que estejam à procura de trocar um centro urbano para um território de baixa densidade. É o caso da iniciativa “Quem quer namorar com uma comunidade rural?”, que vai já na quinta edição. Depois, há as pessoas das várias partes de Portugal e do Mundo que o procuram, para pedir opinião, fazer perguntas, mitigar receios do desconhecido. “Mudar de um centro urbano para um território de baixa densidade é uma mudança um bocadinho assustadora, e nada melhor do que quem cá está para quebrar essas barreiras. Tenho ajudado muitas pessoas a efetivar essa mudança.”
Garante até que foi preciso mudar-se para Mação para descobrir um verdadeiro espírito de comunidade. “Vou comprar ovos caseiros e entregam-me também batatas e cebolas, vou ao meu vizinho levar uma fatia de bolo e volto com meia dúzia de ovos. É um sentido de partilha que não conhecia até aqui e que me parece cada vez mais importante no mundo em que vivemos.”
O espírito de comunidade está também na génese do sUMação, um espaço de “cowork, cultura e inovação” criado por Rui na pacata vila escalabitana, em 2024. “Queria montar o meu escritório, porque trabalho remotamente. E também queria poder reunir pessoas que vieram morar para Mação, num espaço agradável e confortável. Para permitir que o espaço fosse visitado pela comunidade de Mação, criei uma concept store rural na entrada, onde é possível tomar café, sentar, ler o jornal, comprar produtos locais. Ao deixarmos a porta aberta às pessoas de Mação, também fazemos uma integração de quem cá trabalha.”
À entrada, há cestos artesanais, pão de massa mãe, mel, colares, uma pequena sala de estar, estantes carregadas de livros. Lá dentro, há mesas grandes de trabalho dividas em várias ilhas, ao todo são 12 pessoas a trabalhar no espaço a tempo inteiro, metade são portuguesas, mas também há quem chegue de Inglaterra, dos Países Baixos, da Dinamarca, de Moçambique, até das Honduras. Pessoas que ali encontram um espaço para trabalhar e um ombro amigo. Rui explica: “Para quem não domina o português, ter alguém como nós a ajudar na integração é uma mais-valia.” E assim se “cria comunidade”, como gosta de dizer. “Desde o Simon, que faz pão de massa mãe à segunda e à quinta, e pergunta sempre quem quer, à Cátia, que faz os almoços para todos os que queiram comer aqui no espaço, à Ana Maria, que dá aulas de português a quem vem de fora, há um espírito de comunidade grande.”
Pessoas de distintos pontos do país e do Mundo, que ali encontram uma casa comum. Como Ana Quina, lisboeta de 39 anos que se mudou para Mação em abril de 2024. Trabalhou em publicidade durante 14 anos, 12 deles em Londres, a dada altura sentiu que estava na hora de mudar e foi estudar hipnoterapia. Com a mudança de carreira, surgiu também a vontade de comprar casa em Portugal. “Queríamos ir para um sítio mais calmo, onde tivéssemos mais acesso à natureza.” Então começaram “a seguir o rio Tejo”, deram de caras com Mação, foi amor à primeira vista. “É muito verde, mágico, excelente para sair da azáfama de Londres.” Hoje, dedica-se em exclusivo às consultas online de hipnoterapia, de Mação para o Mundo. Nos dias em que tem de criar conteúdo para o negócio, vai para o sUMação, que descobriu acidentalmente. “Um dia, encontrámos o Rui à janela e viemos espreitar.”
Maria Ana Neves tem 64 anos e trabalhou grande parte da vida como designer, em Portugal e no Reino Unido. Foi professora universitária, fez dois mestrados, um mar de coisas. A dada altura, entrou em burnout e voltou a Portugal, com vontade de fazer uma “mudança radical”. O que se consumou no ano passado, quando vendeu a casa que tinha em Lisboa e encontrou em São José das Matas, aldeia de Mação, o espaço que cumpria todos os pontos da sua check-list. Em junho de 2025, nasceu então a “Casa do Tempo”, um alojamento regenerativo que conta até com uma floresta comestível. Também ela é “cliente” habitual do sUMação. “Para uma pessoa que não tem nada a ver com a região, cair aqui e poder beneficiar de uma rede de pessoas com ideias, energia e capacidade criativa e empreendedora é um suporte extraordinário.”
Rui Santos abriu o sUMação em 2024.
O estado de encantamento com Mação é também partilhado por Fiona McCready, inglesa de 46 anos que é diretora de uma empresa de marketing em Inglaterra, escritora e gestora de um alojamento local em Mação. “Quando vou passear a minha cadela toda a gente diz ‘olá, bom dia, tudo bem?’”, elogia, no português que tem aprendido desde que se mudou para o interior de Portugal, já lá vão sete anos. “Eu e o meu marido queríamos uma vida mais simples, como um ritmo mais calmo, um sítio mais autêntico.” Queriam também começar um negócio ligado ao alojamento local. Algures nesse processo, descobriram um moinho de vento em Mação (Moinho da Fadagosa) que os fez ficar. “Foi destino”, garante, entre elogios ao espírito comunitário que se vive na terra. “Sinto que conheço mais pessoas aqui do que em Londres.”
Há quatro anos, Sofia Cardoso cumpriu o sonho de criança: voltar a Lamego, a cidade onde nasceu
Primeiro, o amor ao território
Como Rui, a Rural Move tem muitos outros gestores de comunidade espalhados de norte a sul, a quem cabe implementar os projetos da associação a nível local, ou nas palavras de João Almeida, “criar mini Rural Moves em cada um dos territórios”. Atualmente, são já perto de 40, todos voluntários. “Nunca abri candidaturas, nunca tive dificuldade em atrair talento, tenho imensas pessoas que me mandam mensagens a dizer ‘adoro o vosso propósito, gostava de trabalhar convosco’”, congratula-se João Almeida. O coordenador frisa que há hoje “uma clara estratégia de profissionalização dentro da Rural Move”, com o objetivo de “escalar impacto”, mas reconhece que o amor ao território e ao mundo rural, partilhado pelas dezenas de voluntários que compõem a associação, são o princípio de tudo. De Mação a Miranda do Douro, da Covilhã a Arcos de Valdevez, de Serpa a Nelas, de Águeda a Lamego.
É lá que vive Sofia Cardoso, de 34 anos, depois de um sonho cumprido. Um sonho invulgar aos dias de hoje. “Eu nasci em Lamego, depois os meus pais mudaram-se para o Porto quando eu tinha quatro anos, à procura de uma vida melhor. Mas o meu sonho sempre foi voltar a Lamego.” Durante muito tempo, achou que o faria quando tivesse uns 50 anos. Só que o desgaste provocado pelo trabalho na indústria automóvel (é engenheira mecânica de formação) acabou por lhe apressar os planos. Primeiro, foi estudar enologia para Vila Real, depois veio a covid, e o pós-covid, o Porto “tornou-se caótico” e o desejo de sair da cidade cada vez mais premente.
Ainda esteve seis meses na Serra da Estrela, mas, em 2022, pôde por fim cumprir o invulgar sonho de criança. O marido trabalha remotamente, ela aplica os conhecimentos de enologia no trabalho que tem numa quinta local. E, de súbito, jura que o tempo se fez de plasticina. “No Porto queria fazer imensas coisas, mas parece que nunca tinha tempo para nada. Aqui faço ioga, crossfit, natação, ténis, parece que o tempo estica.” Mas Sofia queria mais do que viver em Lamego, queria ajudar a comunidade a crescer e os novos “movers” a integrar-se. Foi neste cruzamento de vontades que encontrou a Rural Move e que percebeu que também ela tinha de fazer parte daquele projeto. Juntou-se em 2025 e está agora a dar os primeiros passos: conhecer a comunidade e os atores locais, dar a conhecer a associação, acolher as necessidades da comunidade. E, sobretudo, dar montra às potencialidades de Lamego, exaltar a calma, o contacto com a natureza, as acessibilidades. Para que outros se possam render. “Há muita gente que acha que Lamego é uma localidade remota, mas não é verdade. Quero muito mostrar as coisas boas que temos aqui.”
A Rural Move é hoje uma referência clara no que toca à promoção e dinamização do mundo rural e uma das poucas associações a dar apoio direto a novos residentes. Nos últimos anos, apoiou cerca de 250 movers, “formou” mais de 100 líderes rurais e estima ter impactado, ao todo, mais de 2500 pessoas.
Há, contudo, outros projetos a merecer referência. É o caso da Associação Círculo de Estudos do Centralismo, fundada em 2022, em Miranda do Douro, que se foca no estudo, reflexão crítica e debate informado sobre as políticas de centralismo e a falta de coesão territorial em Portugal. Depois, há os tais projetos de âmbito mais local. Como o Centro CO.RE, um “centro de aprendizagem rural”, localizado em São Luís, Odemira, que se foca nas práticas regenerativas e que já atraiu à pequena aldeia do sudoeste alentejano vários novos residentes. Da associação Casa d’Abóbora, um grupo de jovens que têm procurado dinamizar uma aldeia chamada Aldeia, no concelho de Cinfães (distrito de Viseu).
Marisa Almeida, gestora de comunidade da Interioriza-te Youth, já viveu em Moçambique e na Catalunha, mas acabou por voltar às origens. Trabalha para ajudar outros jovens a fixarem-se no território
Por jovens e para os jovens
É ainda o caso da Interioriza-te Youth, uma associação sem fins lucrativos e incubadora social da sub-região Viseu Dão-Lafões, feita por duas dezenas de jovens, para muitos mais. Nasceu também na altura da pandemia, pela mão de um grupo de miúdos de Nelas, inquietos com a problemática dos territórios do Interior, com o despovoamento, com o facto de os jovens estarem “afastados dos poderes de decisão, das oportunidades, do Interior”.
Quem o explica é Marisa Almeida, viseense de 32 anos que se juntou à Interioriza-te depois de andar por Moçambique e pela Catalunha, e que é hoje gestora de comunidade. “Na altura, começou por um conjunto de momentos informais, em que juntávamos jovens e organizações, em que falávamos sobre o Interior e sobre o que leva os jovens a quererem sair do território. Fizemos a primeira feira de emprego em 2022 e desde 2025 somos uma incubadora de inovação social. Trabalhamos com os 14 municípios da sub-região Viseu Dão-Lafões, no domínio de políticas de juventude, de estratégias de atração e fixação da população, de atração de talento, de capacitação para o empreendedorismo, de promoção de iniciativas de empreendedorismo social.”
E sim, também no caso da Interioriza-te Youth o amor à camisola e ao Interior é a tónica que pauta todo o trabalho. Marisa é perentória. “Muitas das pessoas que constituem a associação já saíram do território e já voltaram. O que nos move é gostarmos do sítio onde vivemos, mesmo sabendo que há muitos desafios, que no Interior as oportunidades são mais escassas. Mas queremos trabalhar para que outros jovens possam regressar aqui. E isso não se consegue com ações pontuais.” Portanto, vão-se desdobrando em iniciativas, das feiras de emprego às sessões de sensibilização para o empreendedorismo.
Encontramos Marisa na Escola Superior de Tecnologia e Gestão de Lamego, numa dessas sessões. Para começar, um desafio aparentemente simples: construir um avião de papel. Depois, a gestora de comunidade da associação dá mais um minuto para o melhorarem. E mais um. E ainda outro. A moral da história é simples: também o empreendedorismo e os projetos precisam de tempo e insistência para dar certo. “Este ano, fomos convidados a participar no Poliempreende [um concurso de empreendedorismo nacional realizado no ensino superior politécnico]. A ideia é, com mentorias e oficinas, fazermos sensibilização para o empreendedorismo social e ajudarmos a que os projetos não fiquem na gaveta.” Tudo com um propósito mais profundo. “A nossa grande ambição é fixar talento no território, que possa gerar frutos e ajudar a criar uma cadeia de valor.”
Desde o ano passado, quando arrancaram com a incubadora social, realizaram 14 sessões de sensibilização, abrangendo um universo de 300 jovens. E estão atualmente a encubar 15 projetos. Um deles é o de Cristiano Sequeira, um jovem de 20 anos, natural de Vouzela, que frequenta a instituição e está a assistir à sessão dada por Marisa. Projetou, com mais dois colegas de Vouzela, um sistema autónomo de intervenção inicial contra incêndios, que permite não só uma monitorização constante das áreas florestais como uma primeira resposta, no caso de ser detetado um incêndio. “Muitas vezes, o tempo que os bombeiros demoram a chegar é suficiente para o fogo se propagar. A nossa ideia é fazer uma primeira intervenção, até que os profissionais cheguem, e evitar que fogos de pequenas dimensões se tornem incêndios maiores.”
Para já, a ideia está ainda em fase de projeto. Mas o grupo segue determinado a dar asas ao projeto de ajudar a combater “um dos grandes flagelos da região”. Um objetivo que Cristiano espera estar mais perto de alcançar, com a ajuda da Interioriza-te Youth. A partir de Lamego, para todo o país. Afinal, é esse o propósito maior da associação. Marisa Almeida resume-o assim: “Queremos incentivar os jovens a apostar no nosso território, a alavancar ideias que tenham, a impulsionar estes projetos para que também eles se fixem aqui.”