O que é o vírus Andes e como começou o surto do navio MV Hondius?

O vírus Andes, um tipo raro de hantavírus capaz de transmissão humana, está no centro do surto que matou três pessoas num cruzeiro. Contudo, a Organização Mundial da Saúde considera que o risco atual de uma pandemia global é baixo.

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São um grupo de vírus que infetam naturalmente roedores e ocasionalmente seres humanos, através de contacto com fezes, saliva e urina de rato, podendo originar doenças graves e levar à morte. O primeiro hantavírus foi isolado em 1978, na Coreia do Sul, a partir de um roedor.

Os hantavírus estão distribuídos geograficamente: existem os do novo Mundo – as Américas – e do velho Mundo – Europa e Ásia. "São vírus de espécies diferentes que infetam ratos diferentes e causam patologias diferentes", explicou ao JN Maria João Amorim, virologista e docente na Faculdade de Medicina da Universidade Católica.

Novo Mundo

Américas

Mais associado à síndrome pulmonar e cardiovascular

Velho Mundo

Europa e Ásia

Mais associado à febre hemorrágica com síndrome renal

O vírus Andes circula na América do Sul e está associado ao rato-do-arroz-anão de cauda comprida. Este vírus distingue-se pela capacidade de transmissão entre humanos, quando, na maioria dos hantavírus, a transmissão ocorre apenas de roedores para humanos. Pode causar síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus.

Segundo a OMS, a transmissão entre pessoas está associada a contacto próximo e prolongado, e parece ocorrer sobretudo durante a fase inicial da doença. Contudo, o mecanismo exato de transmissão ainda não foi determinado. "Parece envolver a inalação de aerossóis contaminados, mas ocorre de forma muito limitada", caracteriza Maria João Martins.

1978
Primeiro hantavírus isolado na Coreia do Sul
1995
Identificação do vírus Andes na Argentina e Chile
1996
Primeiras evidências de transmissão entre humanos em El Bolsón, na Argentina
2018-2019
Grande surto em Chubut, na Argentina, com 34 casos confirmados e 11 mortes
2026
Surto associado ao cruzeiro MV Hondius

As autoridades estão a investigar o surto associado ao navio MV Hondius. Uma das hipóteses é que tenha embarcado uma pessoa infetada com o vírus Andes e tenha ocorrido transmissão limitada entre passageiros em ambientes fechados.

O navio partiu da Argentina, onde são reportados cerca de 100 a 200 casos de hantavírus por ano. O país registou, até ao momento, 41 casos em 2026, numa das épocas epidémicas mais intensas dos últimos anos. Na temporada epidemiológica 2025–2026, foram detetados 101 casos, dos quais 32 resultaram em morte, o que representa uma taxa de letalidade de 31,7%.

Rota do navio e evolução do surto de hantavírus
Mortes confirmadas

3

Um casal neerlandês e um cidadão alemão morreram após o surto no navio

Infetados confirmados

4

Dois britânicos, um neerlandês e um cidadão suíço receberam tratamento hospitalar nos Países Baixos, África do Sul e Suíça

Os sintomas iniciais são comuns a outras doenças febris ou respiratórias, como gripe ou covid-19 — o que pode dificultar o diagnóstico. A doença não tem nenhum tratamento específico e o cuidado precoce das complicações é fundamental para aumentar a sobrevivência. Segundo a OMS, nas Américas, a síndrome pulmonar e cardiovascular por hantavírus tem uma taxa de letalidade que varia entre 20 a 40%.

1–8 semanas

Período de incubação do vírus

Fase inicial

Febre, dores musculares e sintomas gastrointestinais

Fase crítica

Tosse, falta de ar, acumulação de líquido nos pulmões e choque

Não existe nenhuma vacina aprovada ou tratamento antiviral específico para a infeção por hantavírus. A principal prevenção passa por evitar contacto com roedores e ambientes contaminados. Em casos de transmissão humana do vírus Andes, isolamento e redução de contacto próximo são recomendados.

  • Evitar contacto com fezes e urina de roedores
  • Manter casas e locais de trabalho limpos
  • Vedar aberturas que permitem a entrada de roedores
  • Ventilar espaços fechados antes de limpar
  • Evitar varrer a seco ou aspirar fezes de roedores
  • Armazenar os alimentos de forma segura
  • Usar proteção em zonas contaminadas
  • Evitar contacto próximo com pessoas infetadas

O que se sabe

  • • O vírus Andes consegue transmitir-se entre humanos
  • • A transmissão parece ser limitada
  • • Os infetados podem desenvolver doença respiratória

O que ainda não se sabe

  • • O mecanismo exato de transmissão humana
  • • A extensão total do surto no navio
  • • Se existirão novos casos associados

Desenvolvido por Inês Moura Pinto

8 de maio de 2026